Carnaval e pegação ou ‘hoje não’?

Num desses dias de plantão lembrei do quanto eu me empolgava para sair no domingo de Carnaval. Não por nada, apenas pelo imaginário que dominava minha mente adolescente quanto às tradições dos Filhos de Gandhy. É porque no nosso “país” Salvador, o bloco de afoxé sai domingo, segunda e terça de Carnaval. Os rapazes se transformam sob aquela fantasia branca de desenhos azuis; o turbante feito sob medida é considerado pelas más línguas um photoshop da vida real… Incrível como o visual de alguns se transforma e todos parecem mais sarados do que realmente são. Um sonho de Carnaval mesmo.

Lá pros meus 15, 16 anos, me empolgava muito pra ir à rua descolar algum colar, adereço que os Filhos de Gandhy dão em troca de um beijo. Existia o objetivo, mas o colar era dispensável, confesso. A graça era mesmo flertar, beijar. No entanto, no fundo, no fundo, queria mesmo aquela tradição de quando a mulher que acompanhava o Gandhy segurava seu turbante. Era um sinal de que os dois estavam juntos e não seria de bom tom que qualquer outro se aproximasse. Parêntese. Tem uma carga de machismo por trás disso, verdade. Afinal, o outro não chega na moça em respeito ao colega, não a ela. Mas deixo essa discussão para um papo de boteco, para quando quiserem me chamar. Fecha parêntese.

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Mas, sim, eu achava bonitinho. Até no Carnaval, num dos hábitos mais libertinos da folia, eu encontrei um jeito de incluir o romance. Já voltei pra casa com um número de colares que não necessariamente condiziam com a realidade dos fatos, mas nunca com a fantasia realizada. Em tese, não haveria qualquer problema, afinal, é Carnavrau! Juro, juradinho, que tudo ia bem até Denny aparecer com a Timbalada cantando ‘Minha História’. Tá aí outro desejo de Carnaval que não se concretizou. E eu até peguei crush em um mocinho que tinha tu-do a ver com essa canção, mas não deu muito certo. Graças a Deus.

Fato é que hoje algumas coisas já não fazem tanto sentido pra mim. Ainda neste ano fui à rua algumas vezes e me peguei pensando em quantas bocas eu poderia beijar naquela noite, mas logo acendeu o alerta: pra quê isso?

Talvez leitores e leitoras que estão hoje em um relacionamento sério não entendam como eu, Solteira Guerreira da Silva Pereira, não me divirto pulando que nem pipoca de boca em boca em pleno Carnaval de Salvador. Mas – é real – algumas coisas simplesmente passam. E ainda que eu beije dois, quatro ou seis, em algum momento vai bater a vontade de dançar ao som da guitarra elétrica acompanhada e não vai ter ninguém ao meu lado. Jammil vai passar mandando a gente colorir papel e ainda vai faltar aquele olhar de cumplicidade e de olhos apertados por causa do sol que brilha forte no fim da tarde ali na orla. E, ok, tudo bem, vamos beijar. Mas quando não houver um amigo disposto a colar atrás do Navio Pirata da BaianaSystem, também não haverá aquele parceiro de crimes pra dizer “Você é doida, mas tô contigo!”. Chega um momento que certas coisas importam mais do que outras.

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Não que eu não me preocupasse com isso já na adolescência – vocês perceberam minha viagem no início do texto, né? -, mas acumular experiência com os “errados” foi importante pra me ajudar a perceber o que vale à pena e o que não vale. Pelo menos não pra mim. Inclusive, olha, se eu conseguisse ser “bagunça”, certeza que optaria por esse caminho mais desprendido, longe de expectativas e mais ainda de frustrações causadas por situações imaginadas que não foram concretizadas. De todo modo, me sinto satisfeita pelo mais próximo que cheguei desse status.

É porque hoje eu consigo dizer sem peso na consciência e ressentimento no coração que faz parte não entrar na lógica que inventaram para o Carnaval, de pegar todo mundo, dar pra quantos quiser. E, quem o faz, fique sabendo que não há absolutamente nada de errado nisso. Cada uma sabe o que é melhor pra si e está em acordo com seu próprio bem estar. Mas também não faz mal ser diferente disso, independentemente dos motivos. Pegar geral não vale à pena pra mim porque não condiz com o que eu quero pra vida, mas pode não valer à pena pra você porque os cuidados que você tem com sua saúde não permitem tal exposição. Ou porque você não beija desconhecidos, fazer o quê?

Não faz mal. É melhor a inércia que mantenha a consciência em paz do que a atitude que te cause desconforto capaz de bagunçar seu equilíbrio. 😉

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