Comportamento,  Entrevistas

Autoestima, maquiagem e geração tombamento com Daniele Da Mata

Salvador recebe na tarde deste sábado o projeto Negras do Brasil, da maquiadora especialista em pele negra Daniele da Mata. E essa mulher super simpática e cheia de ideais, responsável pela DaMata MakeUp, recebeu a Moça Criada no hotel Deville, em Itapuã, na véspera do curso. Batemos um papo bem legal sobre maquiagem, autoestima, o processo de desconstrução e construção de uma estética para a mulher negra, também a partir dessa geração tombamento que está com tudo. Ah! Fiquem atentas, porque DaMata dá dicas preciosas de hábitos, produtos e truques de make para a pele negra. Vamos ver?

O registro depois da entrevista. Que oportunidade! Obrigada, DaMata!
O registro depois da entrevista. Que oportunidade! Obrigada, DaMata!

Quando começou sua relação com a maquiagem?
Eu nunca tive relação com maquiagem nenhuma assim. Com 15 anos eu consegui um estágio numa fábrica de cosméticos, e lá eu comecei a tapar batom, etiquetar manteiga de cacau, e aí ao longo desse período que fiquei lá durante cinco anos, eu aprendi tudo que sei de maquiagem. Passei por esse período da etiquetagem, montagem, fabricação, quando percebi que eu já estava no desenvolvimento e controle de qualidade, então foi aí que comecei a entender essas questões de maquiagem para pele negra, até. Mas eu nunca fui muito próxima assim, nunca gostei de maquiagem, fui uma adolescente totalmente rebelde. Por mais que minha mãe, maravilhosa e exuberante, ela não era muito próxima essa questão de autoestima, beleza e maquiagem. Lembro que a gente se maquiava muito no carnaval, quando minha mãe desfilava, mas fora isso não tinha. E eu sempre tive essa de não querer aparecer demais, passar batom. Tive muito isso na adolescência.

E de onde surgiu essa desconstrução de que você poderia começar a usar maquiagem, colocá-la a seu favor?
Só aconteceu quando eu me tornei maquiadora! rs Que aí passou mais cinco anos, na verdade. Percebi que eu gostava muito de fabricar esse processo, mas tinha que ser algo rentável, e aí um dia me perguntaram “O que você gosta de fazer na sua vida?” – porque naquela época eu estava perdida na adolescência, queria fazer Direito, mas não tinha perspectiva financeira boa para poder bancar essa questão – e aí eu falei “Ah, não sei nada, mas sei fazer maquiagem”, aí a pessoa “Ah, então faz um curso de maquiagem”. Foi aí que eu fiz o curso, me tornei maquiadora, ia maquiar minhas clientes sem maquiagem – era ridícula essa situação. FIz o big chop da transição capilar, cortei na 2 eu acho, na época eu fiquei muito nervosa com a questão da química, tive corte químico pesado, feridas, machucados tremendos, e eu falei “Não quero mais”. Eu comecei a me olhar mais depois que eu tirei aquele monte de cabelo que eu tinha e percebi que eu podia me maquiar de fato, me sentir bonita. Foi um processo bem lento e doloroso, porque você não se conhece, não sabe o que fica bem pro seu rosto, se a base está certa, mesmo sendo maquiadora. Me formei, a maioria das clientes eram negras, mas a grande maioria rentável eram as mulheres brancas, então eu não tinha tanto acesso à maquiagem para pele negra no começo. Isso faz uns oito anos, mais ou menos.

(Foto: Reprodução / Instagram)
(Foto: Reprodução / Instagram)

O projeto Negras do Brasil chega a Salvador neste sábado com o formato e o nome. Como foi o processo de desenvolvimento?
O Negras nasceu em Salvador. EM 2013 eu vim junto com uma amiga, a Boutique de Crioula da Michele Fernandes, e a gente fez um workshop de maquiagem e turbante para 12 pessoas e não tinha nada dessa estrutura. Eu já tinha a escola física no interior de São Paulo, mas nunca tinha pensado em viajar, nada disso. E aí surgiu essa demanda e a gente falou “Ah, vamos pra Salvador, vai ser legal”. Eu escrevi o Negras no aeroporto daqui, imaginei ele na maneira que eu queria, a estrutura. E aí decidi passar por todos os estados brasileiros, que foi intenso, mas escrevi. Percebi que minha autoestima melhorou muito quando comecei a me olhar, me maquiar e me perceber. O que eu ensino para as minhas alunas hoje é o que eu passei. A minha autoestima porque sempre me senti muito feia na adolescência, na infância, no começo da vida adulta também e hoje eu não sinto isso mais. Óbvio que a gente tem aquele dia de mulher, em que a gente se sente horrorosa, mas eu sinto que a minha relação com a beleza mudou muito hoje. A ideia do Negras de ensinar maquiagem é legal, eu acho importante, mas é muito mais de autoestima, pra conversar, pra entender a outra, que também tem uma história muito parecida com a sua. A autoestima da mulher negra é extremamente complicada, de falar pra ela passar um batom vermelho e ela não passar de jeito nenhum, não querer nem se olhar no espelho. A ideia é auxiliar essas mulheres para que elas se descubram na maneira que elas querem, passar batom preto, vermelho, nude, mas que elas gostem delas, não só da maquiagem.

Efetivamente, de que maneira a maquiagem pode ajudar nessa desconstrução?
Ela consegue se sentir mais bela. Às vezes só passar um rímel muda o olhar da pessoa, ou só o batom – depois a gente chega com mais coisas. Mas acredito que é um instrumento muito mais eficaz. Por muito tempo fiz parte do movimento feminista e a grande discussão entre nós era como a gente ia chegar nessas mulheres pra falar sobre feminismo. Hoje a questão do empoderamento através da estética aproxima as mulheres pra esse tipo de conversa, sobre estética do cabelo, roupa, o próprio feminismo mesmo. A gente já falou até sobre violência doméstica em sala de aula, que não tem nada a ver com maquiagem, mas foi a oportunidade que eu tive pra colocar tudo o que eu aprendi nos coletivos e aproximar essas meninas. A beleza é um atrativo da gente conseguir falar de outras coisas.

Lívia Máfrika by DaMata Make Up, para a turnê Salada das Frutas, de Liniker, Tássia Reis e As Bahias e a Cozinha Mineira (Foto: Reprodução / Instagram)
Lívia Máfrika by DaMata Make Up, para a turnê Salada das Frutas, de Liniker, Tássia Reis e As Bahias e a Cozinha Mineira (Foto: Reprodução / Instagram)

A geração tombamento cada dia ganha mais força e sua estética particular tem levantado a autoestima de homens e mulheres negros. Como você vê esse movimento e quem você considera ícone dessa geração?
É difícil dizer porque eu convivo com esse povo todo, e o legal é que eu consegui acompanhar esse processo. Acho que geração tombamento basicamente é empoderamento através da estética pra gente conseguir falar de outros assuntos. Conheço as meninas da Batekoo lá de São Paulo e é muito legal porque o diálogo que elas têm sobre estética é muito além da festa. Eu me considero uma da geração tombamento, por mais que a gente seja muito criticada, mas ela vai além de dinheiro, classe, faz parte de você entender qual sua beleza de fato. E os ícones, a Loo Nascimento [Dresscoração, de Salvador] é uma geração tombamento, Tássia Reis, Karol Conka, Liniker. Fora as pessoas que não têm tanta visibilidade na internet, mas que eu encontro na rua e falo “Meu Deus, como você é maravilhosa!”. Quanto é importante existir essas pessoas dentro da sociedade, eu penso também, porque quando decidi colocar o cabelo preto e branco foi muito mais uma afronta [à sociedade] do que pro belo. Sentia que as pessoas tinham uma repulsa ao meu cabelo “Ah, cabelo feio”, só usava uma cor. Aí eu falei “É? Vai ficar pior agora, vou colocar duas cores”. É importante pra conseguir desconstruir essas coisas.

Você acredita que existe o risco de a geração tombamento ser vista apenas como moda?
Acho que Angela Davis está aí pra provar que nada disso é moda. Passou os anos 1970, foi um empoderamento através da estética também, e é uma coisa que as pessoas dividem aqui, por mais que a gente fale de estética, a gente está fazendo ato político. O que a gente faz hoje é militância 100%. Às vezes não é só falar, mas só de eu habitar o espaço onde eu estou hoje, é uma questão política. Só de eu trazer 40 mulheres nesse hotel, uma coisa histórica, é uma coisa política. Acho que, sim, a gente tem que se ajustar para uma geração que a gente vive hoje. Então eu acho que é importante. Fico muito triste quando questionam essa geração, porque a gente está falando de meninas adolescentes de 12 anos e que eu não tive isso. Nunca vi uma menina com cabelo de duas cores quando eu era pequena e eu com 8 anos nunca tinha visto uma mulher com cabelo black fora da televisão que eu via. Eu acho que isso já é transformador, mas há muito a se fazer ainda.

O projeto Negras do Brasil é itinerante e pretende chegar a todos os estados do país. Na foto, edição do curso em Ouro Preto (Foto: Reprodução / Instagram)
O projeto Negras do Brasil é itinerante e pretende chegar a todos os estados do país. Na foto, edição do curso em Ouro Preto (Foto: Reprodução / Instagram)

A SPFW trouxe algumas sugestões de make: a pele meio nada, acordei assim, e muito brilho, por exemplo. Quais são suas apostas de make para a pele negra nessa temporada de alta estação?
Sempre fui a favor da maquiagem “tô bonita”. Em aula a gente ensina muito sobre tratamento, cuidado. Como a pele negra tem essas manchinhas ou é muito mais escuro que algumas regiões, os tratamentos de estética ajudam a uniformizar a pele, então, você vai precisar usar menos produtos. Eu penso nisso, usar menos base, menos corretivo e tudo mais. Gosto muito de pele natural, por mais que exista uma onda de fazer contorno. Mas eu gosto muito dessa ideia da maquiagem mais leve, mais glow. A única diferença é que a pele negra já tende a ser mais oleosa, não precisa de pontos de brilho, nossa pele já tem esse viço diferente. Numa pele branca que é opaca, com fundo rosa, você já tem que trazer mesmo o brilho ou dourado ou bronze pra ficar mais dourado. Acho que é uma grande aposta, mas vejo que há grande dificuldade de elas entenderem, porque elas gostam do reboco. A gente tem muita mancha e precisa dessa cobertura. Isso aconteceu comigo também, hoje eu uso no máximo três produtos pra fazer pele. Antigamente eram três corretivos – um pra camuflar mancha, um pra camuflar olheiras e corretivo pra uniformizar, depois a base.

Então você acha que o natural vai pegar nos próximos meses?
Tomara, afinal está calor e não dá pra ficar com reboco, mas acredito que sim, vai funcionar sim. E é o produto também, a acessibilidade de encontrar o produto que vai fazer cobertura leve. Mas é uma aposta, sim, nos desfiles foi o que a gente mais viu. As meninas estavam passando óleo de coco pra fazer hidratação e trazer esse brilho – eu pensei “Gente, se eu passar esse óleo eu vou chegar lá e a pessoa vai me ver de longe (risos)”. Acredito muito que vai dar certo, tem só que desconstruir um pouco esse lance da maquiagem, porque a gente tem muita referência americana ainda dentro do Brasil. A gente não conseguiu trazer ainda a referência nossa, que nosso clima é quente, que a gente vai pra praia. É importante a gente trazer identidade da gente, o que acontece aqui. Adoro o que as meninas gringas fazem, mas acho que é importante a gente aceitar o que vive aqui.

(Foto: Reprodução / Instagram)
(Foto: Reprodução / Instagram)

Muito se elogia a pele negra porque ela parece imune ao tempo, parece sempre viçosa. O uso de make com frequência acaba refutando essa tese? Quais são os cuidados essenciais que as moças podem adotar para manter uma pele bonita e saudável?
Isso é só o fato da melanina. E como nossa pele é mais oleosa, ela tende a não envelhecer tanto. Muitas meninas reclamam, mas a pele seca tende a envelhecer mais rápido e você tem que passar mais produto do que uma pele oleosa – as meninas acham que é o contrário. E hoje as tecnologias, principalmente das bases brasileiras, estão muito boas, então não entope poro, tem muitos produtos de tratamento, muitas bases com fator de proteção solar alto. A maquiagem é uma aliada pra tratamento de pele. É claro que você tem que passar e tirar, tem muitas meninas que não gostam de tirar, aí vai estragar mesmo o rosto. Antes de passar maquiagem sempre limpar bem com gel de limpeza, um bom tônico, ajuda a controlar a oleosidade, hidratante e protetor solar. Se não for passar nada, passa pelo menos o protetor solar. As pessoas acham que nossa pele é mais forte, mas ela observe mais a luz solar do que a pele mais clara, por isso mancha. E depois tem que ter um demaquilante na sua vida. Em aula, 20% das que tem demaquilante, e custa R$ 10,00. Tenha um demaquilante, pelo amor de Deus, tira essa maquiagem antes de dormir, senão dorme com cílios aí enfraquece. Toda maquiagem tem tempo de duração na pele, então se você não remove, ela absorve. Por isso é tão importante tirar à noite, que é aquele momento que você dorme e a pele está lá, se regenerando, voltando a tentar de novo uma pele melhor.

Algumas amigas sentem bastante dificuldade em encontrar a base perfeita para o seu tom de pele, muitas até acabam usando um tom mais claro ou aderindo à mistura de tons. Como você observa o investimento da indústria de cosméticos em produtos próprios para a pele negra?
Entrei na fábrica com 15 anos, tinha só a Maxlove que fazia produtos pra pele negra, e aí caiu do mercado. Depois só a Cravo e Canela, e ela quebrou também. Depois desse período a gente ficou num buraco, não tinha nada. Lembro que quando eu desenvolvia produtos, eles sempre voltavam, porque eles falavam que não tinha demanda. Nos e-mails eles falavam que não tinha demanda e que tinha que ser determinada coisa. E aí depois, de uns cinco anos pra cá, percebo que existe um avanço da indústria de cosméticos em geral, e aí melhorou. Eu abri a escola nesse período, então pra dar aula, como eu ia fazer isso? Maluquice. Aí a gente teve a Mary Kay, pioneira a atingir esse público, aí depois veio as outras. O que eu tenho feedback de marca é que existe uma pesquisa de mercado e que o que está em linha é o que mais vende. Esse é o problema, porque as meninas de pele mais escura não são a grande maioria da população negra, mas elas existem. Sempre sai de linha a base delas, e aí fica o meio: chocolate, amêndoa e o mel, que são bases que atingem mais pele morena do que negra, porque eles ainda colocam pele morena e negra na mesma categoria. Eu entendo um pouco a indústria, pelo fato de não ter venda, mas acho extremamente preconceituosa e racista a indústria não olhar para esse público, porque a gente está aí pra provar que as meninas compram, elas vivem reclamando em comentários, SACs, tanto as meninas de pele negra mais clara quanto as de pele mais escura, elas sofrem muito. Quando elas encontram ou é produto importado, difícil de trazer, ou é muito caro e elas não têm acesso para compra, então é uma dificuldade. Vejo avanço, mas pra mim não é bastante ainda. Quero o mesmo que aconteceu com o cabelo, de cosméticos pra cabelo. A minha meta, porque isso também é objetivo do Negras, é no máximo três anos. A gente também é uma questão de pesquisa. Engraçado é que quando chego em Salvador, chego no Rio ou chego no Sul, encontro peles negras com fundos totalmente diferentes, e as marcas não entendem isso. As meninas do Nordeste não podem ter a mesma base que as meninas do Sul.

dicasdamata

Vocês podem conhecer o trabalho da maquiadora Daniele da Mata pelo perfil no Instagram @damatamakeup.

beijo, lindas!

Curiosa, jornalista e libriana. Mestranda no PósCom/Ufba, interessada nos valores - os meus, os seus, os de notícia e os humanos. Se piscar o olho, o cochilo vem, mas os olhos sempre estão abertos para uma série ou outra que desperte o interesse.

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