Moda,  Opinião

A tal da autocrítica: Temos a diversidade de que tanto falamos?

No ano de 2018 foi possível encontrar a propaganda da diversidade a cada esquina. “Viva à diversidade“, “ame seu corpo do jeito que ele é”, “não ceda aos padrões impostos arbitrariamente pela sociedade” foram alguns dos gritos que ouvimos nos grandes centros que são os produtos jornalísticos voltados para o nicho de moda. Não havia parado pra questionar se era isso mesmo até que Carla Lemos, do blog Modices, observou em seu perfil no Twitter que pouco adiantava pregar diversidade, se as capas são das mesmas pessoas de sempre: brancas, loiras, dos olhos claros, magras.

É preciso fazer a tal da autocrítica.

Reforço aqui o que repito para quem explico sobre a minha pesquisa no mestrado: jornalismo é produto cultural. Consequentemente, trazer modelos padrãozinho nas capas nada mais é do que reflexo de um grupo específico, num dado momento específico. Não que só existam mulheres brancas e loiras nos castings de agências, mas este continua sendo o perfil ideal de beleza que estamos acostumados a admirar. De 54 capas de revistas às quais tive acesso e que foram publicadas ao longo do ano passado pela Elle, Glamour, Harper’s Bazaar, Marie Claire e Vogue, apenas 11 traziam mulheres negras estampando suas capas – ou dez, porque Taís Araújo é a estrela de duas edições diferentes.

Destaque para a capa de setembro da Marie Claire com a modelo Winnie Harlow, que possui vitiligo. A principal chamada gritava “os novos valores da moda”: respeito à diversidade, produção sustentável, peças perenes, consumo consciente. No quesito discussões, a revista com berço francês, inclusive, sai à frente de todas as demais. A Marie Claire foi a revista que mais propôs debates sobre assuntos polêmicos e incomuns à pauta de revistas femininas. Tinha look do dia, tinha tendências, o que estava na moda naquele momento. Mas também havia pautas como: o que muda quando as mulheres chegam ao poder; descriminalização do aborto; maternidade depois dos 35 anos; estereótipos de raça; amor lésbico; novos acordos de relacionamento e ejaculação feminina.

Capas da revista Marie Claire publicadas em 2018.
Fotos: Divulgação

Numa primeira análise, julguei que a Marie Claire ocupou bem o espaço deixado pela Elle, após o Grupo Abril decidir descontinuar a publicação no Brasil. A Elle era uma das revistas que mais se esforçava em equilibrar comportamento, ruptura com os padrões e moda. Olhando mais uma vez pra esse material, no entanto, reconheço: a Marie Claire defendia uma pauta progressista e mais útil desde antes. O DNA francês pode influenciar nessas decisões. Que bom que ele segue vivo, pelo menos neste aspecto, em nossa terrinha.

Diversidade – e diversificada
Claro que as outras 40 capas não são apenas de mulheres brancas, dentro de um padrão socialmente estabelecido como ideal. O diferente surge em maneiras distintas, ainda que de inexpressivas. Por exemplo, o envelhecimento feminino é um tabu já faz algum tempo. Assumir rugas, flacidez da pele e fios brancos é mesmo um ato político numa sociedade machista como a nossa.

Duas capas trouxeram a terceira idade em evidência, com artistas já acima dos 70 anos como personagem principal do produto. Isso aconteceu com a Elle de julho, com a musa do easy chic Lauren Hutton, no auge dos seus 74 anos, e com a Bazaar de outubro, cuja estrela foi a primeira modelo brasileira Vera Valdez, aos 82 anos. A gente reconhece o esforço, mas não dá pra dizer que existe uma mudança em curso, porque é forte a relação estabelecida, por exemplo, com chegar aos 35 anos de idade e fazer tratamentos de rejuvenescimento da pele. Ainda é forte a lógica da juventude feminina, mesmo que isso apareça apenas nos mínimos detalhes.

Por outro lado, senti falta de artistas LGBTQ+ nas principais revistas femininas. Foi um ano em que ouvimos Pabllo Vittar, Glória Groove, Liniker. Foi um ano em que gays e lésbicas precisaram se posicionar para garantir e preservar sua existência politicamente. Foi um ano em que, por exemplo, a Glamour preparou um especial LGBTQ+ (setembro/2018), mas isso não levou a capa. Naquela edição, a influencer, empresária e escritora Camila Coutinho foi quem estampou a parte mais importante da revista. Do levantamento que fiz, é possível que apenas duas capas tenham trazido um artista declaradamente homossexual, transgênero ou qualquer outra variação. A primeira, a edição de agosto da Marie Claire, que trouxe a atriz Nanda Costa e a percussionista Lan Lanh, abraçadas, rosto colado, sob os dizeres “amor é amor”. A outra capa foi a Glamour de novembro, que destaca a atriz Bruna Linzmeyer.

Também não houve corpos gordos nas capas, à exceção da cantora Gaby Amarantos, cuja estrutura corporal é mais curvilínea do que o que é tido como padrão.

É preciso destacar também que, apesar da pouca diversidade imagética, as pautas das revistas trazem conteúdo pouco conservador – certamente num diálogo com o momento que estamos passando. Falei acima que a Marie Claire foi a que mais discutiu assuntos polêmicos, tidos como tabus, mas não podemos descartar o esforço da mídia em defender a independência feminina e estimular que as mulheres ocupem espaços de poder. É o caso de pautas como manutenção das finanças sob controle, mulheres poderosas, empoderamento no mercado de trabalho e combate ao machismo.

Lauren Hutton, aos 74 anos, na capa da Elle em julho (esq.) e Vera Valdez, aos 82, na capa da Bazaar de outubro (dir).
Fotos: Divulgação

O caminho parece positivo. Que não seja mero oportunismo, nem que se perca o propósito – caso seja esse o caso – de promover mudanças individuais e sociais. Precisamos que o diferente ocupe cada vez mais espaço nos meios de comunicação, por sua vez legitimadores dos valores que compartilhamos em sociedade. É uma demanda ter outros corpos, outros rostos, outras cores e outras vozes em posição de destaque, ainda que nem todos aceitemos. O respeito pode ser demonstrado de diferentes formas, uma delas conferindo caráter de existência a partir da exposição honesta aos holofotes.

Quem sabe em 2019 não façamos a diferença com o que é tido como diferente?

Curiosa, jornalista e libriana. Mestranda no PósCom/Ufba, interessada nos valores - os meus, os seus, os de notícia e os humanos. Se piscar o olho, o cochilo vem, mas os olhos sempre estão abertos para uma série ou outra que desperte o interesse.

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